Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo
(Tradução de Maria Aparecida da Nóbrega)
OGUM (ÒGÚN)
Ògún na África
Ogum, como personagem histórico, teria sido o filho mais velho de Odùduà, o fundador do Ifé. Era
um temível guerreiro que brigava sem cessar contra os reinos vizinhos. Dessas expedições, ele trazia
sempre um rico espólio e numerosos escravos. Guerreou contra a cidade de Ará e a destruiu. Saqueou
e devastou muitos outros Estados e apossou-se da cidade de Ire, matou o rei, aí instalou seu próprio
filho no trono e regressou glorioso, usando ele mesmo o título de Oníìré, “Rei de Ire” . Por razões que
ignoramos, Ogum nunca teve direito de usar uma coroa (adé), feita com pequenas contas de vidro e
ornada por franjas de miçangas, dissimulando o rosto, emblema da realeza para os iorubas. Foi
autorizado a usar um simples diadema, chamado àkòró, e isso lhe valeu ser saudado, até hoje sob os
nomes de Ògún Oníìré e Ògún Aláàkòró inclusive no Novo Mundo, tanto no Brasil como em Cuba,
pelos descendentes dos iorubas trazidos para esses lugares.
Ogum teria sido o mais enérgico dos filhos de Odùduà e foi ele que se tornou regente do reino de Ifé
quando Odùduà ficou temporariamente cego.
Ogum decidiu, depois de numerosos anos ausente de Irê, voltar para visitar seu filho. Infelizmente, as
pessoas celebravam, no dia da sua chegada, uma cerimônia em que os participantes não podiam falar
sob nenhum pretexto. Ogum tinha fome e sede; viu vários potes de vinho de palma, mais ignorava que
estivessem vazios. Ninguém o havia saudado ou respondido às suas perguntas. Ele não era
reconhecido no local por ter ficado ausente por muito tempo. Ogum, cuja paciência é pequena,
enfureceu-se com o silêncio geral, por ele considerado ofensivo. Começou a quebrar com golpes de
sabre os potes e, logo depois, sem poder se conter, passou a cortar as cabeças das pessoas mais
próximas, até que seu filho apareceu, oferecendo-lhe as suas comidas prediletas, como cães e
caramujos, feijão regado com azeite-de-dendê e potes de vinho de palma. Enquanto saciava sua fome
e sua sede, os habitantes de Ire cantavam louvores onde não faltavam a menção a Ògúnjajá, que vem
da frase Ògún j aja ( Ogum come cachorro ), o que lhe valeu o nome de Ògúnjá. Satisfeito e
acalmado Ogum lamentou seus atos de violência e declarou que já vivera bastante. Baixou a ponta de
seu sabre em direção ao chão e desapareceu pela terra adentro com uma barulheira assustadora. Antes
de desaparecer, entretanto, ele pronunciou algumas palavras. A essas palavras, ditas durante uma
batalha, Ogum aparece imediatamente em socorro daquele que o invocou. Porém elas não podem ser
usadas em outras circunstâncias, pois, se não encontra inimigos diante de si, é sobre o imprudente que
Ogum se lançará.
Como orixá, Ogum é o deus do ferro, dos ferreiros e de todos aqueles que utilizam esse material:
agricultores, caçadores, açougueiros, barbeiros, marceneiros, carpinteiros, escultores. Desde o início
do século, os mecânicos, os condutores de automóveis ou de trens, os reparadores de velocípedes e de
máquinas de costura vieram juntar-se ao grupo de seus fiéis.
Ogum é único, mas, em Ire, diz-se que ele é composto de sete partes. Ògún méjeje lóòde Ire, frase que
faz alusão as sete aldeias, hoje desaparecidas, que existiam em volta de Ire. O número 7 é, pois,
associado a Ogum e ele é representado, nos lugares que lhe são consagrados, por instrumentos de
ferro, em número de sete, catorze ou vinte e um, pendurados numa haste horizontal, também de ferro:
lança, espada, enxada, torquês, facão, ponta de flecha e enxó, símbolos de suas atividades.
Uma história de Ifá, publicada em outra obra, explica como o número 7 foi relacionado a Ogum e o
número 9 a Oiá-Iansã. Conta a lenda:
“Oiá era companheira de Ogum antes de se tornar a mulher de Xangô. Ela ajudava o deus dos
ferreiros nos seus trabalhos; carregava docilmente seus instrumentos, da casa à oficina, e aí ele
manejava o fole para ativar o fogo da forja. Um dia, Ogum ofereceu a Oiá uma vara de ferro,
semelhante a uma de sua propriedade, e que tinha o dom de dividir em sete partes os homens e em
nove as mulheres que por ela fossem tocados no decorrer de uma briga.
Xangô gostava de vir sentar-se à forja a fim de apreciar Ogum bater o ferro e, freqüentemente,
lançava olhares Oiá; esta, por seu lado, também o olhava furtivamente. Xangô era muito elegante,
muito elegante mesmo, afirmava o contador da história. Seus cabelos eram trançados como os de uma
mulher e usava brincos, colares e pulseiras. Sua imponência e seu poder impressionaram Oiá.
Aconteceu, então, o que era de se esperar: um belo dia ela fugiu com ele. Ogum lançou-se a sua
perseguição, encontrou os fugitivos e brandiu sua vara mágica. Oiá fez o mesmo e eles se tocaram ao
mesmo tempo. E, assim Ogum foi dividido em sete partes e Oiá em nove, recebendo ele o nome de
Ògún Mejé e ela o de Iansã, cuja origem vem de Iyámésàn a mãe (transformada em) nove .
Ogum é também representado por franjas de folhas de dendezeiros devidamente desfiadas, chamadas
màrìwò. Elas serviam de vestimenta aos Igbá Im lè, os duzentos deuses da direita, dos quais fala
Epega, aqueles que, tendo se conduzido mal, foram destruídos por Olodumaré, com exceção de
Ogum, que se tornou assim o guia, o condutor dos Irun Im lè, os quatrocentos deuses da esquerda, os
únicos, segundo ainda Epega, de que se pode falar sem perigo.
Esses màrìwò, pendurados acima das portas e janelas de uma casa ou à entrada dos caminhos,
representam proteção, barreiras contra as más influências.
Os lugares consagrados a Ogum ficam ao ar livre, na entrada dos palácio dos reis e nos mercados.
Estão presentes também na entrada nos templos de outros orixás. São geralmente pedras em forma de
bigorna colocadas perto de uma grande árvore, àràbà (Ceiba pentandra), ou protegidas por uma cerca
de plantas nativas chamadas pèrègùn (Dracaena fragrans) ou de akòro (Newbouldia laevis). Nesses
locais, periodicamente, realizam-se sacrifícios de cachorros e galos, acompanhados de oferendas de
vinho de palma e pratos de feijão e inhame cozidos e regados com azeite-de-dendê.
O culto de Ogum é bastante difundido no conjunto dos territórios de língua ioruba e em certos países
vizinhos, gêges, como o ex-Daomé e o Togo, onde é chamado de Gun. Ogum é, provavelmente, o
deus ioruba mais respeitado e temido. Tomá-lo como testemunha no decorrer de uma discussão,
tocando com ponta da língua a lâmina de uma faca, ou um objeto de ferro, é sinal de sinceridade
absoluta. Um juramento feito envocando-se o nome de Ogum é o mais solene e digno de fé que se
possa imaginar, comparável àquele que faria um cristão sobre a Bíblia ou um mulçumano sobre o
Corão.
A vida amorosa de Ogum foi muito agitada. Ele foi o primeiro marido de Oiá aquela que se tornaria
mais tarde mulher de Xangô. Teve, também relações com Oxum antes que ela fosse viver com Oxossi
e com Xangô. E também com Oba, a terceira mulher de Xangô, e léfunlósunlórí, Aquela-que-pintasua-
cabeça-com-pós-branco-e-vermelho, a mulher de Òrì à Oko. Teve numerosas aventuras galantes
durante suas guerras, tornando-se, assim, pai de diversos orixás, como Oxossi e Oranian.
A importância de Ogum vem do fato de ser ele um dos mais antigos dos deuses iorubas e, também,
em virtude da sua ligação com os metais e aqueles que os utilizam. Sem sua permissão e sua proteção,
nenhum dos trabalhos e atividades úteis e proveitosas seriam possíveis. Ele é, então e sempre, o
primeiro e abre o caminho para os outros orixás.
Entretanto, certos deuses mais antigos que Ogum, ou originários de países vizinhos aos iorubas, não
aceitam de bom grado essa primazia assumida por Ogum, o que deu origem a conflitos entre ele e
Obaluaê e Nanã Buruku, dos quais falaremos mais adiante.
Os oríkì de Ogum demonstram seu caráter aterrador e violento:
“Ogum que, tendo água em casa, lava-se com sangue” .
Os prazeres de Ogum são os combates e as lutas.
Ogum come cachorro e bebe vinho de palam.
Ogum, o violento guerreiro,
O homem louco com músculos de aço,
O terrível b ra que se morde a si próprio sem piedade.
Ogum que come vermes sem vomitar.
Ogum que corta qualquer um em pedaços mais ou menos grandes.
Ogum que usa um chapéu coberto de sangue.
Ogum, tu es o medo na floresta o temor dos caçadores.
Ele mata o marido no fogo e a mulher no fogareiro.
Ele mata o ladrão e o proprietário da coisa roubada.
Ele mata o proprietário da coisa roubada e aquele que critica esta ação.
Ele mata aquele que vende um saco de palha e aquele que o comprar” .
Mas os guerreiros, mesmo os valorosos, têm algumas vezes momentos de fraqueza. Uma lenda
africana nos conta como Ogum, voltando de uma guerra, em companhia de sua mulher, deixa-se
atemorizar pelo coaxar das rãs, e como ele cortou a cabeça de sua mulher, que o havia humilhado
contando essa aventura em público. Essa mesma lenda foi publicada por Lydia Cabrera, que a
recolheu em Cuba.
Cerimônias para Ogum
Cerimônias dignas de serem mencionadas celebravam-se com regularidade na região de Ahori (no
lado nigeriano) ou Holi (no lado daomeano), realizavam-se todas no dia da semana ioruba dedicado a
Ogum, ou seja, de quatro em quatro dias. Os s nla (grandes domingos) alternavam se com os s
kékeré (pequenos domingos); os primeiros tinham mais esplendor que os outros. Esta região Ahori-
Holi ficava relativamente preservada da ação civilizadora das administrações coloniais e daquelas que
as sucederam. A estrada que atravessa Holi, ligando Kêto ao sul de ex-Daomé, só foi aberta em 1953,
em virtude da natureza pantanosa de algumas partes dessa região, ou seja, apenas sete anos antes da
independência desses paises.
Citamos, a seguir, alguns dos numerosos templos de Ogum nessas paragens:
Ogún Igiri em Adja Were,
Ogún Edeyi em Ilodo,
Ogún Ondó em Pobê, em Igbó-Isso e em Irokonyi,
Ogún Igboigbo em Ixedé,
Ogún Elénjo em Ibanion e em Modogan,
Ogún Agbo em Ixapo,
Ogún lóp em Ixedé Ije,
Ogún Ab san em Ibanigbe Fuditi.
Trata-se de um só e único ogum, cujo segundo nome designa ou o lugar de origem, como Ondô, ou o
nome do fundador, ou, ainda, o nome de uma divindade como no último da relação, para qual ele
serve de guardião.
O aspecto desses templos era notável. Situados, geralmente, em lugares calmos e isolados, no meio de
uma clareira cercada de arvores frondosas. Apresentavam a forma semelhante a de uma cabana
redonda, com telhado cônico e pontiagudo, precedidos por uma galeria ornada com pilastras
esculpidas. Construídos com materiais locais: engradamento de madeira, telhado de palha ou de
folhas de palmeira trançadas, paredes feitas de bambu.
Os templos dedicados a Ogún Ondô eram de estilo diferente. Todos eles tinham em comum o telhado
de cumeeira alta, com duas águas descendo quase até o chão. Vistos de frente, pareciam uma muralha
elevada, tendo, ao nível do solo, uma entrada cuja verga era tão baixa que só se podia penetrar no
interior do templo curvando-se muito, de maneira respeitosa, ou então rastejando-se com apoio dos
cotovelos e joelhos.
O templo de Igbo-Isso, apresentado neste trabalho, perto de Aba, conservou essas características. O
de Podê, que conhecemos em 1936, era um edifício majestoso com telhados de palha, alto e pontudo,
mas, infelizmente, católicos zelosos, estimulados pelos sermões “ incendiários” de um reverendo
missionário que, do púlpito, esbravejava sempre contra as religiões pagãs, julgaram por bem “ ajudar a
Providência” ateando fogo ao templo de Ondó numa noite de verão. Foi uma bela fogueira cuja
conseqüência foi a reconstrução do templo, com material à prova de fogo, coberto por um telhado de
zinco ondulado, semelhante a um galpão ou um galinheiro. Para dar graça ao conjunto e, ao mesmo
tempo, amedrontar os incendiários, desenharam, acima da porta, dois leopardos mostrando todas as
suas garras.
Ad cerimônias s nlà, em Ògún Ondó, realiza-se numa grande praça, de cerca de cem metros de
comprimento por trinta de largura, que era antigamente, uma clareira no meio de uma floresta. Com o
tempo essa floresta ficou reduzida a uma estreita faixa de árvores, formando uma cortina medíocre
entre o recinto sagrado e a cidade. O templo de Ondó esta situado em um dos lados maiores do
retângulo. Defronte, encontra-se outro templo menor e circular, dedicado a Arè, e no fundo, onde
devia ser antigamente a entrada da clareira, um templo igualmente circular, de È ù l gbára. Este
conjunto se completa por dois pequenos cercados quadrados, de cinqüenta centímetros de lado,
chamados idomosun. Num deles, no começo da cerimônia, colocam-se o osun de cada um dos
principais dignitários; o outro é reservado ao osun de Olúp nahá ainda, em diversos locais, troncos de
árvores deitados no chão, servindo de assento aos diversos participantes da cerimônia.
Os principais oficiantes do culto de Ògún Ondó são:
Aláà , responsável pelo à do orixá. Ele não entra em transe e seu papel é semelhante ao dos
M gbà angó, do qual trataremos mais adiante. Aláà era antigamente o chefe religioso mais
importante da comunidade e é, ainda, saudado com um título de Kábiyèsí, reservado aos reis. Ele
senta-se durante a cerimônia ao lado do templo de Ògún Ondó.
Saba que é assistente de Aláà , entra em transe de possessão por Ògun Ondó durante o o ;
k r , assistente de Saba; são dois em geral, e ambos são possuídos (montados por gùn) por Ògún
Ondó. Se sentam lado a lado, perto do idomosum.
Isa, que cuida de Arè e toma lugar perto do seu templo, é durante a cerimônia possuído por esta
divindade.
Olápòna, que se ocupa de Exu e senta-se perto do seu templo, é por ele possuído por ele muitas vezes,
é acompanhado por um Olápòna de um outro templo de Ogún, vindo de alguma cidade vizinha.
Há ainda cerca de outros vinte olóyè, portadores de títulos, que não entram em transe e têm, cada um
deles, seu lugar reservado, de onde assistem a cerimônia e dela participam. Entre eles há os gb nlá,
os soldados de Ogum, armados com grandes facões e longos bastões.
Duas mulheres consagradas a Dúdúa, nome dado na região a Òrì àálá, sentam-se perto dos k r ,
mas permanecem como meras espectadoras e contentam-se em bater em instrumentos de ferro, em
sinal de respeitosa atenção, nos momentos mais solenes. Há ainda as ìyàwó (iaôs) de Ondó, que
cantam em seu louvor.
Ao lado do templo de Ar instala-se o conjunto, composto de três atabaques e um agogô. Os
atabaques são: uma aposi, pequeno tambor em terracota; um ogidan, tambor alongado colocado rente
ao chão; e o kele, pequeno tambor com pés.
Os participantes do s de Ògún Ondó chegam de manha cedinho. Aláà , Saba, os k r , Isa ou os
Olúp na vestem-se com um pano colorido, amarrado no ombro direito. Têm na cabeça um gorro de
palha pontudo, enfeitado com grandes penas de galo e penas vermelhas da cauda de papagaios. Os
pulsos são ornados com numerosas pulseiras de contas de vidro de diversas cores. Eles trazem numa
das mãos seus osun de ferro que vão colocar no idomosun. Na outra mão, tem um facão e dois
grandes chocalhos (ààjà), que são batidos um no outro enquanto caminham. Olúp na traz ainda um
g , bastão esculpido de forma fálica.
Todos vão se sentar em seus respectivos lugares, com ar severo e recolhido. As ìyàwó de Ògún Ondó
em seguida trazendo oferendas de alimentos para as divindades: Ògún Ondó, Ar e È ù. As grandes
gamelas são colocadas nas portas dos três templos. Saba, ajudado pelos k r , Isa e os Olúp na
levantam-se com a cabeça descoberta, deixando seus gorros, ààjà e facões em seus respectivos lugares
e entram em atividade, nos seus templos respectivos, colocados ali uma parte das oferendas
preparadas com inhame e feijão, regadas com azeite-de-dendê. Põem uma porção desses alimentos em
seus osun para que os antigos titulares do posto, atualmente ocupados por eles, participem também da
festa.
Em seguida, fazem oferendas de divindade para divindade e para os diversos olóyè. Isso provoca uma
série de idas e vindas em que cada divindade recebe, em troca de seus donativos, um contradonativo
dos dois outros. Resulta desses intercâmbios uma refeição comunitária em que participam todos os
espectadores do s .
Os oficiantes do culto consultam as divindades utilizando nozes de cola para verificarem se os deuses
estão satisfeitos, em seguida alguns dos dignitários vão se reunir em um local que era outrora uma
clareira adjacente, para deliberarem e comentarem o resultado das consultas. Ao cabo de certo tempo,
voltam e sentam-se nos lugares que lhe são reservados.
Um período de calma sucede a toda essa agitação, após o que, os músicos entram em ação. Executam
uma série de invocações. Aláposi bate alguns compassos em seu tambor aposi, que esta preso entre
seus joelhos; Ológidan, cavalgando seu instrumento ogidan colocado no chão, o acompanha. Esses
dois tambores formam um conjunto falante, emitem sons ondulados, de acordo com a pressão mais ou
menos intensa de uma das mãos do executante sobre os couros dos tambores, invocando os deuses. O
terceiro tambor, kele, está no chão, diante de Oníkele, que nele bate com duas varetas numa cadência
extremamente rápida. Vez por outra ele é substituído por um dos seus assistentes, que mantém o
ritmo, com a mesma cadência acelerada, criando com seu tom agudo uma atmosfera de tensão
nervosa que, em certos momentos, torna-se quase insuportável.
O conjunto toca assim, por períodos interrompidos por curtos e repentinos momentos de silêncio.
Essas interrupções contribuem para criar uma sensação de anciosa expectativa. Na sétima vez, os
Olúp na dão um grito estridente. A expressão de seus rostos transforma-se. Põem gorro pontudo,
pegam seus ààjà e seus g , com eles tocam três vezes o chão e levantam-se de um salto. Seus gritos
são retomados por Saba, pelos dois k r , sentados lado a lado, e por Isa. Enquanto os atabaques
fazem suas chamadas, todos passam pelas mesmas fases de tensão e de concentração progressivas.
Apertam nervosamente suas mãos, com os dedos entrelaçados, seus músculos se contraem, baixam a
cabeça, fazem a testa e cerram os dentes. São, então, possuídos respectivamente por È ù, Ògún Ondó
e Ar . Cada um deles dá um grito estridente e levanta-se de um só impulso, saltando muito alto, e vão,
apressadamente, reunir-se diante do templo de Ògún Ondó.
A expressão dos rostos mudou de novo. Agora estão com um ar descontraído, folgazão e vagamente
alegre, balançando a cabeça e resmungando frases inacabadas. Caminham com passos irregulares,
desajeitadamente, levantando muito os pés. Quando param, eles se estremecem e oscilam para frente
e para trás, bem devagar.
O conjunto toca sem parar mas em surdina. Os elégùn, possuídos pelos deuses, com Olúp na à frente,
partem em fila e correm ofegantes, com o corpo inclinado para frente e arrastando os pés. Vão em
direção à entrada da clareira e a outros lugares, parando um momento agitado seus ààjà, saúdam os
quatro cantos do mundo. Em seguida, vão cumprimentar Aláà , que esta sentado perto do templo de
Ògún Ondó. Aproximam-se um a um, passam cuidadosamente seus ààjà e seu facão para a mão
direita e com a esquerda apertam a de Aláà , sacudindo-a com força. Tocam três vezes o chão com
seus ààjà, entrechocam-nos com força e regularidade e executam, assim uma verdadeira música de
ferreiros que lembra o som do martelo batendo sobre uma bigorna. Formulam, com voz de falsete
votos de prosperidade e de felicidade. Vão em seguida saudar da mesma forma todos os dignitários,
os tocadores de atabaques, os gb nlá e os ìyàwó de Ògún Ondó. O ritmo da música transforma-se e
torna-se cada vez mais rápido. Os elégùn começam então a dançar, lado a lado, como numa quadrilha
e seguindo, cuidadosamente o compasso marcado pela música, indo do templo de Ondó ao de Ar .
Recuando, voltam ao ponto de partida e continuam dançando durante um bom tempo, um pouco
pesadamente e em diversas direções, marcando seus movimentos com o som de sinos entrechocados.
A música pára e os elégùn também. Passam a caminhar de um lado para o outro, com passos ora
apressados, ora indolentes, mas sempre desajeitados e hesitantes. Eles profetizam, cantarolam e
alternadamente sorriem ou ficam carrancudos; levantam as sobrancelhas, arregalam os olhos ou, com
ar beato, exprimem votos aos presentes. Por fim, vão se sentar em seu lugar habitual, resignadamente,
com a cabeça baixa e o queixo encostado no peito. Por instantes são agitados por tremores, mas pouco
a pouco, voltam a si e retomam sua expressão e comportamentos habituais.
Para os fon do Daomé, Gun desempenha o mesmo papel que Ogun dos iorubas, mas como Odùdùa, é
desconhecido em Abomey. Gun, aí, é considerado o filho de Lisa e Mawu, versão fon de Orì àálá e
Yemowo. Maximilien Quénum o compara a L gba e assinala sua presença diante das forjas. Christian
Merlo indica que todos os templos têm seu Gun, cuja virtude é fortificar o vodun.
Ogum no Novo Mundo
Ogum no Brasil é conhecido, sobretudo como deus dos guerreiros. Perdeu sua posição de protetor dos
agricultores, pois os escravos, nos séculos anteriores, não possuíam interesse pessoal na abundância e
na qualidade das colheitas e, sendo assim, não procuravam sua proteção neste domínio. Isso explica,
igualmente, pouco a pouco que os iorubas, escravos no Brasil, deram ao Òri à Oko, cujo culto
continuou popular na África. Como deus dos caçadores, Ogum foi substituído por Oxossi, trazido à
Bahia pólos africanos de Kêto, fundadores dos primeiros candomblés desta cidade.
Ogum recebe na Bahia sete nomes próximos daqueles com os quais ele é designado na África.
Existem algumas variações nas listas dadas pelas pessoas interrogadas, mas os nomes mais
freqüentemente mencionados parecem ser: Ogum Onirê, Ogum Akorô, Ogum Alagbedê, Ogunjá,
ogum Mejê, Ogum Omini, Ogum Warí.
As pessoas consagradas a Ogum usam colares de contas de vidro azul-escuro e, algumas vezes, verde.
Terça feira é o dia da semana que lhe é consagrado. Como na África ele é representado por sete
instrumentos de ferro, pendurados em uma haste do mesmo metal, e por franjas de folhas de
dendezeiro desfiadas, chamadas màrìwò.
Seu nome é sempre mencionado por ocasião de sacrifícios dedicados aos diversos orixás no momento
em que a cabeça do animal é decepada com uma faca – da qual ele é o senhor.
É também o primeiro a ser saudado depois que Exú é despachado. Quando Ogum se manifesta no
corpo em transe de seus iniciados, dança com ar marcial, agitando sua espada e procurando um
adversário para golpear. É, então, saudado com gritos de “Ogum ieee!” (“Olá, Ogum!” ). É sempre
Ogum quem desfila na frente, “ abrindo caminho” para os outros orixás, quando eles entram no
barracão nos dias de festa, manifestados e vestidos com suas roupas simbólicas.
Na Bahia, Ogum foi sincretizado com Santo Antônio de Pádua. Expressamos já num capítulo
precedente nossa surpresa a respeito da aproximação do deus ioruba e esse santo, geralmente
representado com um ar doce a envolvente, bem como a propósito das surpreendentes honras
militares que lhe foram concedidas. No Rio de Janeiro, é com São Jorge que Ogum foi associado, o
que é mais compreensível, pois ele é representado em suas imagens como um valente guerreiro,
vestido com uma brilhante armadura, montado em um fogoso cavalo, às curvetas, e armado com uma
lança com a qual ele transpassa um dragão encolerizado.
Em Cuba, Ogum é sincretizado com São João Batista e São Pedro.
No Haiti, “ a família dos Ogous engloba o conjunto dos loas nagôs, os orixás iorubas. Encontra-se aí:
“O pai e chefe dos Ogous, Papa Ogou, sincretizado com São Tiago Maior;
Ogou Ferraille, sincretizado com São Felipe;
Ogou Olisha (Obatalá) sincretizado com São Raimuido;
Ogou Balinjo (que existe na África em Dassa Zumê), sincretizando com São Tiago Menor ou São
José;
Ogou Djamsan (Iansã-Oiá) e Ossange (Ossain) fazem parte da mesma família dos Ogous, mas não
sabemos com que santos eles são sincretizados;
Enfim, Ogou Chango (Xangô), que, sob influência de Cuba, foi sincretizado com santa Bárbara “ .
Arquétipo
O arquétipo de Ogum é o das pessoas violentas, briguentas e impulsivas, incapazes de perdoarem as
ofensas de que foram vítimas. Das pessoas que perseguem energeticamente seus objetivos e não se
desencorajam facilmente. Daquelas que nos momentos difíceis triunfam onde qualquer outro teria
abandonado o combate e perdido toda a esperança. Das pessoas que possuem humor mutável,
passando por furiosos acessos de raiva ao mais tranqüilo dos comportamentos. Finalmente, é o
arquétipo das pessoas impetuosas e arrogantes, daquelas que se arriscam a melindrar os outros por
uma certa falta de discrição quando lhe prestam serviços, mas que, devido à sinceridade e fraqueza de
suas intenções, tornam-se difíceis de serem odiadas.
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