Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo
(Tradução de Maria Aparecida da Nóbrega)
Òsanyìn na África
Ossain é a divindade das plantas medicinais e litúrgicas. A sua importância é fundamental, pois
nenhuma cerimônia pode ser feita sem a sua presença, sendo ele o detentor do à
( o poder ),
imprescindível até mesmo aos próprios deuses.
O nome das plantas, a sua utilização e as palavras (f), cuja força desperta seus poderes, são os
elementos mais secretos do ritual no culto aos deuses iorubás.
O símbolo de Ossain é uma haste de ferro, tendo, na extremidade superior, um pássaro em ferro
forjado; esta mesma haste é cercada por seis outras dirigidas em leque para o alto.
Uma história de Ifá nos ensina como “ o pássaro é a representação do poder de Ossain. É o seu
mensageiro que vai a toda parte, volta e se empoleira sobre a cabeça de Ossain para lhe fazer o seu
relato” . Esse simbolismo do pássaro é bem conhecido das feiticeiras, aquelas freqüentemente
chamada Elý
, “ proprietárias do pássaro-poder” .
Cada divindade tem as suas ervas e folhas particulares, dotadas de virtudes, de acordo com a
personalidade do deus. Lydia Cabrera publicou uma lenda interessante, difundida em cuba, sobre a
repartição das folhas entre as diversas divindades.
“Ossain havia recebido de Oloduramaré o segredo das ervas. Estas eram de sua propriedade e ele não
as dava a ninguém, até o dia em que Xangô se queixou à sua mulher, Oiá-Iansã, senhora dos ventos,
de que somente Ossain conhecia o segredo de cada uma dessas folhas e que os outros deuses estavam
no mundo sem possuir nenhuma planta. Oiá levantou suas saias e agitou-as impetuosamente. Um
vento violento começou a soprar. Ossain guardava o segredo das ervas numa cabaça pendurada num
galho de árvore. Quando viu que o vento havia soltado a cabaça e que esta tinha se quebrado ao bater
no chão, ele gritou: “ Ewé O! Ewé O!” (“ Oh! As folhas! Oh! As folhas!” ), mas não pôde impedir que
os deuses as pegassem e as repartissem entre si “ .
A colheita das folhas deve ser feita com extremo cuidado, sempre em lugar selvagem, onde as plantas
crescem livremente. Aquelas cultivadas nos jardins devem ser desprezadas porque Ossain vive na
floresta, em companhia de Àrònì, um anãozinho, comparável ao saci-pererê, que tem uma única perna
e, segundo se diz no Brasil, fuma permanentemente um cachimbo feito de casca de caracol enfiado
num talo oco cheio de suas folhas favoritas. Por causa dessa união com Àrònì, Ossain é saudado com
a seguinte frase: “Holá! Proprietário-de-uma-única-perna-que-come-o-proprietário-de-duas-pernas!”
alusão às oferendas de galos e pombos que possuem duas patas, feitas a Ossain Àrònì, que possui
apenas uma perna.
Os
lóòsanyìn, adeptos de Ossain, são também chamados Oníìègùn, curandeiros, em virtude de suas
atividades no domínio das plantas medicinais. Quando eles vão colher as plantas para seus trabalhos,
devem faze-lo em estado de pureza, abstendo-se de relações sexuais na noite precedente, e indo à
floresta, durante a madrugada, sem dirigir palavra a ninguém. Além disso, devem ter cuidado em
deixar no chão uma oferenda em dinheiro, logo que cheguem ao local da colheita.
Ossain está estreitamente ligado a Orunmilá, o senhor das adivinhações. Estas relações, hoje cordiais
e de franca colaboração, atravessaram no passado períodos de rivalidade. Algumas lendas refletem as
lutas pela primazia e pelo prestígio entre os adivinhos babalaôs e os curandeiros onixegum. Como
essas histórias são transmitidas através das gerações pelos babalaôs, não é de estranhar que tendam a
glorificar mais Orunmilá, e em conseqüência eles mesmos, do que Ossain e os curandeiros.
Segundo uma lenda recolhida por Bernard Maupoil, “ quando Orunmilá veio ao mundo, pediu um
escravo para lavrar seu campo; compraram-lhe um no mercado; era Ossain. Na hora de começar seu
trabalho, Ossain percebeu que ia cortar esta erva, pois é muito útil” . A segunda curava dores de
cabeça. Recusou-se também a destruí-la. A terceira suprimia as cólicas.”Na vedade” , disse ele, não
posso arrancar ervas tão necessárias.” Orunmilá, tomando conhecimento da conduta de seu escravo,
demonstrou desejo de ver essas ervas, que ele se recusava a cortar e que tinha grande valor, pois
contribuíam para manter o corpo em boa saúde. Decidiu, então, que Ossain ficaria perto dele para
explicar-lhe as virtudes das plantas, das folhas e das ervas, mantendo-o sempre ao seu lado na hora
das consultas” .
Uma outra história de Ifá nos diz que,se é Ossain que conhece o uso medicinal das plantas, é,
entretanto, a Orunmilá que cabe o mérito de haver conferido nomes a essas mesmas plantas. Os
poderes de cada planta de cada estão em estreita ligação com o seu nome e são despertados por
palavras obrigatoriamente pronunciadas no momento de seu uso. Essas palavras são indicadas pelos
adivinhos aos curandeiros, fato este que dá aos primeiros uma posição de supremacia sobre os
segundos.
Essa superioridade é afirmada numa outra lenda, onde “Oferenda” , filho de Orunmilá, compete com
“Remédio” , filho de Ossain. Graças a um artifício imaginado por Orunmilá, seu filho “Oferenda” é
declarado vencedor de “Remédio” para mostrar que o poder dos babalaôs é superior ao dos
curandeiros. Os babalaôs afirmam assim que, sem o poder liberador da palavra, as plantas não
exerceriam a ação curativa que possuem em estado potencial.
Ossain é originário de Irão, atualmente na Nigéria, perto da fronteira com o ex-Daomé. Ele não fez
parte dos dezesseis companheiros de Odùduà, quando de sua chegada a Ifé. O papel de curandeiro é
assumido aí por Elésj
.
Na África, os curandeiros, chamados
lóòsanyìn, não entram em transe de possessão. Eles adquirem
a ciência do uso das plantas após uma longa aprendizagem.
Ossain no Novo Mundo
No Brasil, as pessoas dedicadas a Ossain usam colares de contas verdes e brancas. Sábado é o dia
consagrado a ele e as oferendas que lhe são feitas compõem-se de bodes, galos e pombos. Seu iaôs, ao
contrário daqueles de África, entram em transe, mas nem sempre possuem conhecimento profundo
sobre as virtudes das plantas. Quando eles dançam, trazem nas mãos o mesmo símbolo de ferro
forjado, cuja descrição já foi feita anteriormente. O ritmo dos cantos e das danças de Ossain é
particularmente rápido, saltitante e ofegante. Saúda-se o deus das folhas e das ervas gritando-se: “
Ewé Ô! “ (“Oh! As folhas!” ).
O arquétipo de Ossain é o das pessoas de caráter equilibrado, capazes de controlar seus sentimentos e
emoções. Daquelas que não deixam suas simpatias e antipatias intervirem nas suas decisões ou
influenciarem as suas opiniões sobre pessoas e acontecimentos. É o arquétipo dos indivíduos cuja
extraordinária reserva de energia criadora e resistência passiva ajuda-os a atingir os objetivos que
fixaram. Daqueles que não tem uma concepção estreita e um sentido convencional da moral e da
justiça. Enfim, daquelas pessoas cujos julgamentos sobre os homens e as coisas são menos fundados
sobre as noções de bem e de mal do que sobre as de eficiência.
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