domingo, 18 de agosto de 2013

Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo (Tradução de Maria Aparecida da Nóbrega) -OiáYánsàn

Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo
(Tradução de Maria Aparecida da Nóbrega)
OIÁ- ( YA YÁNSÀN)
ya Yánsàn na África
ya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò
ya. Foi a primeira mulher de Xangô e tinha um temperamento ardente e impetuoso. Conta uma
lenda que Xangô enviou-a em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma
vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e pelo nariz. Oiá, desobedecendo às
instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também capaz de cuspir fogo, para
grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder.
Oiá foi, no entanto, a única das mulheres de Xangô que, ao final do seu reinado, segui-o na sua fuga
para Tapa. E, quando Xangô recolheu-se para baixo da terra em Kossô, ela fez o mesmo em Irá.
Antes de se mulher de Xangô, Oiá tinha vivido com Ogum. Vimos, em capítulos precedentes, como a
aparência do deus do ferro e dos ferreiros causou-lhe menos efeito que a elegância, o garbo e o brilho
do deus do travão. Ela fugiu com Xangô, e Ogum, enfurecido, resolveu enfrentar o seu rival; mas este
último foi à procura de Olodumaré, o deus supremo, para lhe confessar que perdoasse a afronta. E
explicou-lhe: “Você, Ogum, é mais velho do que Xangô! Se, como mais velho, deseja preservar sua
dignidade aos olhos de Xangô e aos outros orixás, você não deve se aborrecer nem brigar; deve
renunciar a Oiá sem recriminações” . Mas Ogum não foi sensível a esse apelo, dirigido aos
sentimentos de indulgência. Não se resignou tão calmamente assim, lançou-se à perseguição dos
fugitivos e, como vimos anteriormente, trocou golpes de varas mágicas com a mulher infiel. Que foi
então, dividida em nove partes. Este números 9, ligado a Oiá, está na origem de seu nome Iansã e
encontramos esta referência no ex-Daomé, onde o culto de Oiá é feito em Porto Novo sob o nome de
Av san, no bairro Akron ( Lokoro dos Iorubás) e sob o de Ab san, mais ao norte em Baningbê. Esses
nomes teriam por origem a expressão Aborim san (“ com nove cabeça” ), alusão aos supostos nove
braços do delta do Níger.
Uma outra indicação da origem desse nome nos é dada pela lenda da criação da roupa de Egúngún
por Oiá. Roupas sob as quais, em certas circunstâncias, os mortos de uma família voltam a terra a fim
de saudar seus descentes. Oiá é o único orixá capaz de enfrentar e de dominar os Egúngún.
Oiá lamentava-se de não ter filhos. Esta triste situação era conseqüência da ignorância a respeito das
suas proibições alimentares. Embora a carne de cabra lhe fosse recomenda, ela comia a de carneiro.
Oiá consultou um babalaô, que lhe revelou o seu erro, aconselhando-a a fazer oferendas, entre as
quais deveria haver um tecido vermelho. Este pano, mais tarde, haveria de servir para confeccionar as
vestimentas dos Egúngún. Tendo cumprido essa obrigação, Oiá tornou-se mãe de nove crianças, o que
se exprime em iorubá pela frase: “ Iyá m mésàn, Origem de seu nome Iansã.
Quanto ao seu outro nome ya, há uma lenda que faz alusão à sua origem explicando-a por um jogo
de palavras. Nela se conta “ como uma cidade chamada Ipô esta ameaçada de destruição, invadida
pelos guerreiros tapás. Para preserva-la foi feita uma oferenda das roupas do rei dos ipôs. Esse traje
era de tal beleza que as galinhas do lugar puseram-se a cacarejar de surpresa – razão pela qual, diz-se
gravemente na lenda, as galinhas cacarejam até hoje, sempre estão em presença de qualquer coisa
estranha. Esse prestigioso traje foi rasgado (ya) em dois para servir para servir de almofada de apoio
às cabaças de oferendas. Apareceu então, misteriosamente, uma água que se espalhou (ya), inundando
os arredores da cidade e afogando os agressores tapas. Quando os habitantes de Ipô procuraram um
nome para este rio que surgiu e se espalhou, ya, quando as roupas foram rasgadas, ya, decidiram
chamá-lo Odò ya.
Existe uma lenda, conhecida na África e no Brasil, que explica de que maneira os chifres de búfalo
vieram a ser utilizados no ritual do culto de Oiá-Iansã:
“Ogum foi caçar na floresta. Colocando-se à espreita, percebeu um búfalo que vinha em sua direção.
Preparava-se para mata-lo quando o animal, parando subitamente, retirou sua pele. Uma linda mulher
apareceu diante de seus olhos. Era Oiá-Iansã. Ela escondeu a pele formigueiro e dirigiu-se ao mercado
da cidade vizinha. Ogum apossou-se do despojo, escondendo-o no fundo de uma depósito de milho,
ao lado de sua casa, indo, em seguida, ao mercado fazer a corte à mulher-búfalo. Ele chegou a pedi-la
em casamento, mas Oiá recusou inicialmente. Entretanto, ela acabou aceitou, quando, de volta à
floresta, não mais achou a sua pele. Oiá recomendou ao caçador não contar a ninguém que, na
realidade, ela era um animal. Viveram bem durante alguns anos. Ela teve nove crianças, o que
provocou o ciúme das outras esposas de Ogum. Estas, porém, conseguiram descobrir o segredo da
aparição da nova mulher. Logo que o marido se ausentou, elas começaram a cantor: “ Máa je, máa
um, àwò r nb nínú àká” , Você Pode beber e comer (e exibir sua beleza), mas a sua pele está no
deposito (você é um animal).
“Oiá compreendeu a alusão; encontrando a sua pele, vestiu-a e voltando à forma de búfalo, matou as
mulheres ciumentas. Em seguida, deixaram os seus chifres com os filhos, dizendo-lhes: Em caso de
necessidade, batam um contra o outro, e eu virei imediatamente em vosso socorro. É por essa razão
que chifres de búfalos são sempre colocados nos locais consagrados a Oiá-Iansã” .
Tivemos oportunidade de ouvir essa história na Bahia, narrada por Pai Cosme, um Velho pai-desanto,
hoje falecido. Ele pronunciava com perfeita correção a frase iorubá citada acima.
Os oríkì dirigidos a Iansã descrevem-na bastante bem:
“Oiá, mulher corajosa que, os acordar, empunhou um sabre” .
Oiá, mulher de Xangô.
Oiá, cujo marido é vermelho.
Oiá, que embeleza seus pés com pó vermelho.
Oiá, que morre corajosamente com seu marido.
Oiá, vento da morte.
Oiá, ventania que balança as folhas das árvores por toda parte.
Oiá, a única que pode segurar os chifres de um búfalo” .
Oiá-Iansã no Novo Mundo
As pessoas dedicadas a Iansã, nome sob o qual ela é mais conhecida no Brasil, usam colares de contas
de vidro grená. A quarta-feira é o dia da semana consagrado a ela, o mesmo dia de Xangô, seu
marido. Seus símbolos são como na África: os chifres de búfalo e um alfanje, colocados sobre seu
“ pejí” . Ela recebe sacrifícios de cabras e oferendas de acarajés (àkàrà na África). Ela detesta abóbora
e a carne de carneiro lhe é proibida.
Quando se manifesta sobre um dos iniciados, ela está adornada com uma coroa semelhante à dos reis
africanos , cujas franjas de contas escondem o seu rosto. Ela traz um alfanje em uma das mãos e um
espanta-moscas feito de cauda de cavalo na outra. Suas danças são guerreiras e, se Ogum está
presente, ela se engaia num duelo com ele, lembrança, sem dúvida, de suas antigas divergências. Ela
evoca também, através de seus movimentos sinuosos e rápidos, as tempestades e os ventos
enfurecidos. Seus fiéis saúdam-na gritando: “ Epa Heyi ya!” .
No Brasil, Oia é sincretizada com Santa Bárbara e, em Cuba, com Nuestra Señona de la Candelária.
Certa Iansãs, chamadas Yánsàn de Igbalè, ligadas ao culto dos mortos, os Egúngún, quando dançam
parecem expulsar as almas errantes com seus braços largamente abertos e estendidos para a frente.
Arquétipo
O arquétipo de Oiá-Iansã é o das mulheres audaciosas, poderosas e autoritárias. Mulheres que podem
ser fiéis e de lealdade absoluta em certas circunstâncias, mas que, em outros momentos, quando
contrariadas em seus projetos e empreendimentos, deixam-se levar a manifestações a mais extrema
cólera. Mulheres, enfim, cujo temperamento sensual e voluptuoso pode leva-las a aventuras amorosas
extraconjugais múltiplas e freqüentes, sem reserva nem decências, o que não as impede de
continuarem muito ciumentas dos seus maridos, por elas mesmas enganados.
©Copyright MBJ Desenvolvim

Nenhum comentário: